Campo do Ferrovia: entre o barulho do trem e a tensão da funerária

Terrão de Rio Grande da Serra inicia série de matérias sobre praças futebolísticas mais velhas de cada uma das sete cidades

A construção desenfreada de casas e prédios, em especial, elimina uma série de campos de futebol a
cada ano. Mas muitos resistem e, como já foi publicado pelo ABCD MAIOR há cerca de quatro meses, o palco mais antigo do Brasil está em Paranapiacaba (inaugurado em 1894). A partir deste sábado (21/09), iniciamos uma série de matérias semanais sobre os estádios que sobrevivem há mais tempo em cada uma das sete cidades da Região e ainda são usados pelas Ligas Amadoras.
Em Rio Grande da Serra, nosso primeiro destino, a história do terrão do Ferrovia se explica pelo próprio nome. O campo inaugurado em 1998 faz fronteira com linha de trem da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), que passa ao lado da praça esportiva que é um retrato bem fiel do improviso - aparenta abandono. Pena que está com os dias contados: a nova estação da própria CPTM no município será erguida justamente onde se encontra o Ferrovia, com obras previstas já para 2014.
“Até há cerca de três anos, o Ferrovia não tinha vestiários. Os atletas se trocavam em vagões abandonados pela CPTM que ficavam ao lado. Isso durou anos. Nos trilhos, o trem passava apitando de lá para cá. Era gostoso. Quando caia a neblina, era tão forte que o jogo parava 20 ou 30 minutos. Às vezes ia com névoa mesmo. De um gol não se enxergava o outro. Se chutasse, a bola entrava”, recorda, bem humorado, o munícipe Carlos Fumagalli.
O alambrado e as traves estão bem enferrujados e corroídos pelo tempo. Os buracos no alambrado são tapados com tapumes cheios de pregos. Se chove no terrão, vira lama; se faz sol, sobe aquela poeira. Bem à porta da entrada dos jogadores ao campo, se avista, olhem só, a Funerária Central, que cobra R$ 37 por mês aos interessados. O kit completo é composto por caixão, flores e roupa para o cliente. As funcionárias Maíra e Camila distribuem folhetos da casa aos atletas toda vez que tem rodada do futebol amador, geralmente aos domingos (leia abaixo).
“O movimento está meio fraco, mas sempre vendemos”, diz Maíra. Morador vizinho ao campo, Gilberto Valle confessa que sempre assiste às partidas, mas se incomoda com a funerária. “Quero distância. Dizem que não é bom ficar ali do lado”, avisa. 
Ainda há dois trens abandonados no fundo de um dos gols. Quando garoa, o ambiente fica triste, deixando o Ferrovia com ares de fantasma “A cidade fica vazia, triste, dizem que aqui é mal-assombrado. Eu não acredito. Gosto daqui e do povo”, palpita Lídio Furquim, que nasceu em Ribeirão Pires. Ele lembra de nomes históricos do Ferrovia, time que batiza o campo. “Nos anos 1980, Pintado, Xita, Xixela, Pedala, Cabeção, Coice de Mula (centroavante cearense), Cavalo, Zoinho e Cristão eram queridos. Todos sumiram”, lamenta.
 Desativado - O campo do Pedreira foi construído antes mesmo da emancipação de Rio Grande, que completou 49 anos recentemente. Apesar de ter sido inaugurado em 1930, não é utilizado pela Liga local, no máximo, para amistosos.
Liga utiliza apenas Ferrovia e Teixeirão
Com o Pedreira praticamente desativado, a Liga de Futebol Amador de Rio Grande da Serra (fundada em 1985) só tem duas opções para marcar as partidas dos 32 times filiados, divididos entre a 1ª e a 2ª Divisão: o próprio Ferrovia e o Teixeirão, que tem piso de grama e alambrados. 
“Quase 100% dos atletas residem no município (que tem pouco mais de 44 mil habitantes). São trabalhadores que jogam por amor às cores das equipes, geralmente filhos e netos de antigos diretores, trabalhadores, casos das famílias Fumagalli, Furquim e Marques, ex-presidentes de time. A cada domingo é uma festa, um futebol sem violência. Neste domingo (22/09), por exemplo, está agendada a semifinal entre o Guerreiros e Águia do Vale, às 10h, no Teixeirão. O vencedor encara o Ferrovia na decisão da 1ª Divisão”, comenta e já faz o convite o presidente da Liga, Welington Fontes, o Lagartão.
Em função da escassez de praças esportivas, o secretário de Esportes de Rio Grande da Serra, Clodoaldo Nascimento, diz que há projetos para a construção de mais dois campos. “Estamos vendo três áreas na cidade para novos campos, mas tudo é muito burocrático na Prefeitura, verbas minguadas, há outras prioridades no município”, pondera. 

 http://abcdmaior.com.br/noticia_exibir.php?noticia=53823
 
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Sobre Breno Junior

Lado a Lado com o esporte do Grande ABC. Amante e entusiasta do Esporte no interior do ABCDM.
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